Não há dúvidas de que o pensamento alemão, via Habermas, vem apostando numa modernidade moribunda, que deve ser vivida para evitar fontes e formas de escapismo auto-alienantes. Quando esse ciclo acabará? O que nos faz presos a uma situação histórica purgativa, sem perspectivas de resolução?
A outra opção é o pensamento daqueles que afirmam haver uma pós-modernidade instaurada, desde uma data ainda não muito bem conciliada, mas no último quartel do século XX. Não há "pós" sem o encerramento do antecessor: só há pós-Comunismo porque esse regime caiu; assim como pós-Absolutismo, pós-Modernismo, pós-Colonialismo, pós-Imperialismo. Como, então, resolver aporias qual pós-Humanismo, pós-Industrialismo, pós-Capitalismo, se Humanismo, Industrialismo e Capitalismo ainda acontecem na nossa esfera pública?
O grande sinal verdadeiramente contrapositor desse tempo morreu abortado pelo consumo de drogas: a Contracultura, que surgiu muito incipiente e geniosa em meio a uma ânsia vital e irrefreada por liberdade, contra a opressão generalizada típica desse momento histórico, cujo documento comprobatório são os regimes autoritários espalhados pelo Ocidente e Oriente, sob uma bandeira vermelha - como o sangue dos rebeldes -, ou repressivos e conservadores, sob uma bandeira da águia - como o déspota machiavélico.
Parece que a humanidade ainda não assimilou a bofetada da Dialética do Esclarecimento. Parece que, a partir de 1940, o pensamento humano, de modo geral representado mal ou bem pelas universidades e academias, vem lastimando uma ordem, uma lógica do fracasso. Alarmando os malefícios do Esclarecimento, uma extensa bibliografia foi dedicada à explicação de quão terrível o Ocidente, imbricado com o sistema capitalista, tem sido para os povos, particularmente no nível individual.
Creu-se que a exponenciação colossal da situação implicaria a geração de uma nova era: a pós-modernidade. Ora, não há nada de "pós" numa fase extremamente adensada; pelo contrário: vejo essa fase como essencial, característica e representativa.
A modernidade vem a lume como projeto explícito, diligente e estruturado com os românticos alemães, depois da Querela dos Antigos e Modernos nos Setecentos. Se recorrermos a ele, veremos que a engrenagem do sistema é a ruptura, daí o novo como valor. Não será com uma ruptura que encerraremos seu mecanismo vital, não é mesmo? Ao contrário, estaríamos perpetuando sua lógica, em direção ao revigoramento da modernidade. Deslocando a questão desse eixo teórico para um enorme pragmatismo/empirismo, há quem sustente a pós-modernidade em termos de avanços tão intensos que representariam um salto para outra situação, outra época, tomados como exemplos o computador, a cibernética, clonagem, etc. - os últimos produtos tecnológicos. Aqui, o critério recai sobre a Tecnologia, isto é, a feição da techné.
Seria possível reconhecer o acerto dessa fundamentação se não olhássemos para trás e percebêssemos grandes saltos dessa qualidade, sem, no entanto, implicar o esgotamento da modernidade. Se da televisão para o computador pessoal, se da maquinaria para a cibernética robótica, se das seleções de Mendel para a clonagem, reconhecemos evidentemente avanços muito, mutíssimo intensos, o que diremos da carroça para o carro, do rádio para a televisão, do quadro para a fotografia? Esquecemos de nos auto-reconhecer na diferença carroça/carro? Claro que não; o que acontece é que essa visão, essa nova proposta, se apegou por demais à aparência.
Eu insisto na opinião de que a grande questão é (sempre) de linguagem. O próprio Romantismo de Jena, na voz de Schlegel, nos dá as pistas. É a "arte futura", que chegaria para completar o espírito moderno, levando-o a uma nova experiência existencial, a uma nova conjuntura. Portanto, através dessa categoria, Schlegel vislumbrava um projeto moderno para além da modernidade conhecida e vivida: a pós-Modernidade. Em que consistia esse projeto (permita-me a redundância para clarear), "projeto de futuro"? Schlegel já havia intuído, no começo dos Oitocentos, a estrutura viciada da modernidade na absorção da novidade e da ruptura, já que ela é sempre sinal dos novos tempos e dos tempos recentes. Para evitar o ciclo, Schlegel propõe adotar uma nova linguagem (e logos): a dialética entre o discurso moderno inerente ao homem moderno e a visitação ao pensamento antigo-grego, produzindo uma linguagem autêntica e diferenciada, desestabilizando, talvez sem saber, a estrutura moderna de pensamento pela influência antigo-grega, obtida a partir de releituras criativas e criadoras de uma nova mitologia. Que tipo de mitologia seria essa? Ora, é a mitologia pós-moderna, cujos esboços nos foram dados pelo Parnasianismo, mormente do Brasil.
Considero que estamos no ensejo de intensificar esse diálogo entre modernidade e antiguidade (vide o interesse pelos filósofos socráticos e pré-socráticos), originando, inevitavelmente, uma nova e outra linguagem, uma nova e outra mitologia, um novo e outro sistema, uma nova e outra cartografia, um novo e outro discurso, etc., etc., etc. A urgência de nossas necessidades e premências indicam prospectivamente que esse caminho será a Ecologia, trilhada pelo homem como terceira via, o "projeto de futuro", redimensionando as bases modernas radicalmente (por isso instaurando finalmente a tão falada pós-modernidade).
O apelo veio do seio de Gaia, convocando toda a horda dos "deuses desertores" (para usar a expressão de Hölderlin) a um reclame pela convivência pacífica entre Homem e Natureza. Por isso, o projeto moderno, teorizado por Schlegel, para mim ganha nesse momento a chance de se realizar; ou melhor, nós é que ganhamos, pois poderemos sair da selvageria capitalista e da barbárie das massas. É nesse sentido que posiciono o Brasil como a maior potência (potencial) pós-moderna, por ter a oportunidade de buscar o direcionamento da Ecologia nos seus biomas como Amazônia, Cerrado, Caatinga e Pampa.
terça-feira, 25 de dezembro de 2007
sábado, 22 de dezembro de 2007
Natal e Perspectivas Melhores
O Natal é um momento de partilha irrestrita. Sem limites, a confraternização universal é capaz de unir o rito pagão do Papai Noel e o nascimento do Cristo Salvador. Melhor chance para mudarmos, suscetíveis aos bons sentimentos e pensamentos.
Tomados pela graça divina, podemos reconhecer nossos erros e limitações, bem como agradecer nossas virtudes que a força do Sagrado nos dá.
Deveríamos começar por praticar aquilo que ensinamos às crianças: não roubar, não matar, respeitar, amar a todos, justamente os Ensinamentos do Deus Criador.
As novas perspectivas são cada vez mais claras e dialogadas: rumamos para a compreensão de nossa relação interpessoal com os outros e com a natureza. Esse o caminho para refazer valores, abandonando o lucro desenfreado, o egoísmo e a cobiça/avareza para abraçar o cuidado, o saber, o diálogo. Há tempo ainda para entrarmos no Terceiro Milênio.
Nele poderemos construir o que sempre tivemos como meta: paz, amor, saúde, união, alegria e prosperidade.
Só há sentido em ser rico para gastar contra a fome e a pobreza. Liberdade, igualdade e fraternidade terão lugar garantido no nosso destino: melhorarmos.
Tomados pela graça divina, podemos reconhecer nossos erros e limitações, bem como agradecer nossas virtudes que a força do Sagrado nos dá.
Deveríamos começar por praticar aquilo que ensinamos às crianças: não roubar, não matar, respeitar, amar a todos, justamente os Ensinamentos do Deus Criador.
As novas perspectivas são cada vez mais claras e dialogadas: rumamos para a compreensão de nossa relação interpessoal com os outros e com a natureza. Esse o caminho para refazer valores, abandonando o lucro desenfreado, o egoísmo e a cobiça/avareza para abraçar o cuidado, o saber, o diálogo. Há tempo ainda para entrarmos no Terceiro Milênio.
Nele poderemos construir o que sempre tivemos como meta: paz, amor, saúde, união, alegria e prosperidade.
Só há sentido em ser rico para gastar contra a fome e a pobreza. Liberdade, igualdade e fraternidade terão lugar garantido no nosso destino: melhorarmos.
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
Tropa de Elite: o direito do mais forte
Hoje, 5 de novembro, passei o dia no cinema atendendo ao apelo da Mostra de Filmes Nacionais, que ofereceu ingresso a R$ 2,00. O público realizou sua histeria midiática em torno do título Tropa de Elite, que foi recebido como última palavra (e por isso mais dona da verdade) sobre violência urbana no Brasil e a Guerra do Tráfico, que determinam, querendo-se ou não, grande parte de nosso momento cotidiano atual.
Ora, o filme se arroga como grande conhecedor do metiê do tráfico, pondo em ação três grupos sociais: os pobres (favelados) que administram o tráfico, a classe média (jovens consumidores e pais tanto mais vítimas quanto mais cegos) e a polícia (a corrupta, dispersada nos escalões de praxe, e a "justiceira" - heróis do filme -, representada pelos integrantes da divisão especial denominada BOP).
A trama se faz nos atritos de visões-de-mundo radicalmente distintas entre os três grupos. Por exemplo, os jovens da classe média se enxergam como vítimas da violência policial contra seus direitos de ir e vir (e nisto eles incluem o uso de drogas, embora legalmente vedado - criando um paradoxo). Os pais, por sua vez, sem conhecimento minimamente estruturante sobre o assunto, permanecem atrás de uma peneira moral tão rígida quanto obsoleta, para tapar um enorme sol que encontrou sua eclipse crônica.
Do outro lado, os policiais, entre os quais o narrador, consideram os jovens usuários como o sustentáculo do crime organizado de drogas, os verdadeiros finaciadores do tráfico armado.
Já os traficantes apresentam uma ética totalmente atípica: vale tudo contra a polícia. Digo atípica não porque seja imoral, como de fato o é, mas porque até os aliados viram inimigos, sem direito à explicação. Foi o que aconteceu com a ONG de responsabilidade social - outra ética, assim como a dos pais, obsoleta - diante do infortúnio: os agentes mantenedores eram universitários e acabaram adentrando na favela, sem saber, um policial (que preferencialmente deve esconder sua profissão), que era colega de turma na faculdade.
A ordem é a do ódio, como se vê. A polícia odeia o tráfico, isto é, tanto o traficante quanto o jovem de classe média consumidor; o traficante repudia a polícia e com isso qualquer envolvimento, ainda que incidental, mesmo dos usuários; o consumidor hostiliza a polícia e, quando sabe do "vale tudo" contra a polícia (na dimensão macro-metonímica do Estado), enxerga a segregação, pagando com sua vida uma infeliz coincidência sem espaço para arrependimento, como o fato de morrer por ter, sem saber, um colega de faculdade policial.
Nesse caso, evidentemente, não há espaço para o a-topos, elemento por vezes conciliador, por vezes problematizador, por vezes dialético (não raro propulsor da circularidade). Isto é, o policial que estudava na universidade da classe média, teve de se afirmar pertencente a um grupo, não podendo ficar naquele "entre" polícia e jovens de classe média consumidores. Diante da morte (tomada nesta frase, não exclusivamente, como revelação do oculto), os jovens de classe média consumidores enxergam finalmente o indesejável: o abismo entre traficante e consumidor. Quer dizer, as fronteiras são fechadíssimas.
A divisão especial da Polícia Militar, conhecida exatamente como Tropa de Elite, cuja sigla oficial na Corporação Militar é BOPE, ocupa a posição de herói porque a lei que impera aqui é a do mais forte. Parece que todos estão satisfeitíssimos em conhecer quem, circunstancialmente, exercer o poder da força. E já esquecemos Rousseau assim tão facilmente, nesse retrocesso?
Parece que todos perderam completamente a noção do que seja selvageria, genocídio, matança e violência, pois estão interessados em conhecer quem impera na barbárie.
De minha parte, como quase sempre, estou numa ínfima minoria que pensa diferente até mesmo da "segunda via" e às vezes da "terceira via". Achar os culpados, os mocinhos e os bandidos não vai resolver o problema, porque o problema é identificá-los. Será que ninguém percebe isso? Enquanto houver essa estrutura, o mocinho tem o direito de matar o bandido, pois o Bem deve expurgar o Mal, enquanto o usuário é o culpado de tudo isso, então paga penitências, que não são religiosas, mas carcereiras ou mortíferas. Mas o que todos estão esquecendo é que o bandido apela para a auto-defesa, que se confunde com instinto de sobrevivência frente ao perigo fatal (não importando se é justo ou não) - afinal, ninguém quer morrer, mesmo que você torça para tanto.
Quem sai ganhando? Engana-se quem pensa o BOPE, pois vivem arriscando suas vidas (tomando pílulas, estressados, paranóicos), sem nenhum superpoder extraterrestre, pois não estamos na ficção dos quadrinhos. Tão bom seria, não é mesmo, uma Tropa de Elite formada por Super-Homem, Batman, Acquaman e toda a Liga da Justiça, quase imortais, contra Coringa, Lex Lutor, e Cia Ltda., vilões sem pai, nem mãe, nem povo.
Precisamos deixar de viver os quadrinhos, e para isso temos que acabar com a tripartição dos grupos. E como a polícia deixa de ser o mocinho e o traficante deixa de ser o bandido? Isso todo mundo sabe, mas ninguém quer dizer, nem muito menos fazer. Preferem, de modo geral, a ética rígida e obsoleta. Tenho certeza de que o ano 3000 nos verá como uma barbárie estúpida e comezinha, incapaz de aceitar mudanças, exatamente como enxergamos o ano 1000, cheio de inquisidores intransigentes sustentados pelo interesse do moralismo mais tacanha de todos os tempos: o índex. Mas temos o nosso: não de livros (porque não é necessário), mas de temas (porque aqui já se evitam os livros). É duro dizer, mas somos mais radicais: somos nossos próprios inquisidores. Proibimos um a priori sob amplo e irrestrito consenso.
Ora, o filme se arroga como grande conhecedor do metiê do tráfico, pondo em ação três grupos sociais: os pobres (favelados) que administram o tráfico, a classe média (jovens consumidores e pais tanto mais vítimas quanto mais cegos) e a polícia (a corrupta, dispersada nos escalões de praxe, e a "justiceira" - heróis do filme -, representada pelos integrantes da divisão especial denominada BOP).
A trama se faz nos atritos de visões-de-mundo radicalmente distintas entre os três grupos. Por exemplo, os jovens da classe média se enxergam como vítimas da violência policial contra seus direitos de ir e vir (e nisto eles incluem o uso de drogas, embora legalmente vedado - criando um paradoxo). Os pais, por sua vez, sem conhecimento minimamente estruturante sobre o assunto, permanecem atrás de uma peneira moral tão rígida quanto obsoleta, para tapar um enorme sol que encontrou sua eclipse crônica.
Do outro lado, os policiais, entre os quais o narrador, consideram os jovens usuários como o sustentáculo do crime organizado de drogas, os verdadeiros finaciadores do tráfico armado.
Já os traficantes apresentam uma ética totalmente atípica: vale tudo contra a polícia. Digo atípica não porque seja imoral, como de fato o é, mas porque até os aliados viram inimigos, sem direito à explicação. Foi o que aconteceu com a ONG de responsabilidade social - outra ética, assim como a dos pais, obsoleta - diante do infortúnio: os agentes mantenedores eram universitários e acabaram adentrando na favela, sem saber, um policial (que preferencialmente deve esconder sua profissão), que era colega de turma na faculdade.
A ordem é a do ódio, como se vê. A polícia odeia o tráfico, isto é, tanto o traficante quanto o jovem de classe média consumidor; o traficante repudia a polícia e com isso qualquer envolvimento, ainda que incidental, mesmo dos usuários; o consumidor hostiliza a polícia e, quando sabe do "vale tudo" contra a polícia (na dimensão macro-metonímica do Estado), enxerga a segregação, pagando com sua vida uma infeliz coincidência sem espaço para arrependimento, como o fato de morrer por ter, sem saber, um colega de faculdade policial.
Nesse caso, evidentemente, não há espaço para o a-topos, elemento por vezes conciliador, por vezes problematizador, por vezes dialético (não raro propulsor da circularidade). Isto é, o policial que estudava na universidade da classe média, teve de se afirmar pertencente a um grupo, não podendo ficar naquele "entre" polícia e jovens de classe média consumidores. Diante da morte (tomada nesta frase, não exclusivamente, como revelação do oculto), os jovens de classe média consumidores enxergam finalmente o indesejável: o abismo entre traficante e consumidor. Quer dizer, as fronteiras são fechadíssimas.
A divisão especial da Polícia Militar, conhecida exatamente como Tropa de Elite, cuja sigla oficial na Corporação Militar é BOPE, ocupa a posição de herói porque a lei que impera aqui é a do mais forte. Parece que todos estão satisfeitíssimos em conhecer quem, circunstancialmente, exercer o poder da força. E já esquecemos Rousseau assim tão facilmente, nesse retrocesso?
Parece que todos perderam completamente a noção do que seja selvageria, genocídio, matança e violência, pois estão interessados em conhecer quem impera na barbárie.
De minha parte, como quase sempre, estou numa ínfima minoria que pensa diferente até mesmo da "segunda via" e às vezes da "terceira via". Achar os culpados, os mocinhos e os bandidos não vai resolver o problema, porque o problema é identificá-los. Será que ninguém percebe isso? Enquanto houver essa estrutura, o mocinho tem o direito de matar o bandido, pois o Bem deve expurgar o Mal, enquanto o usuário é o culpado de tudo isso, então paga penitências, que não são religiosas, mas carcereiras ou mortíferas. Mas o que todos estão esquecendo é que o bandido apela para a auto-defesa, que se confunde com instinto de sobrevivência frente ao perigo fatal (não importando se é justo ou não) - afinal, ninguém quer morrer, mesmo que você torça para tanto.
Quem sai ganhando? Engana-se quem pensa o BOPE, pois vivem arriscando suas vidas (tomando pílulas, estressados, paranóicos), sem nenhum superpoder extraterrestre, pois não estamos na ficção dos quadrinhos. Tão bom seria, não é mesmo, uma Tropa de Elite formada por Super-Homem, Batman, Acquaman e toda a Liga da Justiça, quase imortais, contra Coringa, Lex Lutor, e Cia Ltda., vilões sem pai, nem mãe, nem povo.
Precisamos deixar de viver os quadrinhos, e para isso temos que acabar com a tripartição dos grupos. E como a polícia deixa de ser o mocinho e o traficante deixa de ser o bandido? Isso todo mundo sabe, mas ninguém quer dizer, nem muito menos fazer. Preferem, de modo geral, a ética rígida e obsoleta. Tenho certeza de que o ano 3000 nos verá como uma barbárie estúpida e comezinha, incapaz de aceitar mudanças, exatamente como enxergamos o ano 1000, cheio de inquisidores intransigentes sustentados pelo interesse do moralismo mais tacanha de todos os tempos: o índex. Mas temos o nosso: não de livros (porque não é necessário), mas de temas (porque aqui já se evitam os livros). É duro dizer, mas somos mais radicais: somos nossos próprios inquisidores. Proibimos um a priori sob amplo e irrestrito consenso.
terça-feira, 25 de setembro de 2007
Caosmose, de Félix Guatarri
Enquanto alguns procuram descomplicar as reflexões para alcançar o diálogo mais irrestrito, outros submergem nos conceitos estanques. É o exemplo de Félix Guatarri, que terminou desafortunadamente um livro brilhantemente começado: Caosmose: o novo paradigma estético.
As primeiras páginas são valiosíssimas porque tentam justificar a permanência do sujeito, embora vertido para o conceito de subjetividade. Aliás, a discussão epistemológica talvez tenha sufocado a mensagem: Guatarri propôs a adoção do conceito de "agenciamentos", a revisão do conceito de "Universos", a crítica ao conceito de "território/territorialização/desterritorialização", um novo uso do conceito de "ritornelo" e um mau entendimento do conceito de poiesis e autopoiesis. Quanto aos primeiros conceitos: não é precisado o que seja "agenciamento"; é confusa a diferença entre "universo" e "território". Sobre os dois últimos, porém, sinto-me mais à vontade para falar, pois Guatarri os tomou da teoria literária e da filosofia de Heidegger.
O ritornelo é uma repetição estrutural de um(ns) versos(s) no intuito de provocar um efeito significativo a partir das diferenças semânticas intuídas com os conteúdos entre os ritornelos. Em outras palavras, o ritornelo muda de sentido em cada aparição. Não são jamais "territórios existenciais coletivos" onde "um módulo temporal catalisador nos mergulhará na tristeza ou na alegria". Pelo contrário, os ritornelos são essencilamente subjetivos, implícitos e conotativos. A partir do já dito, isto é, do "território existencial coletivo", acontece o não-dito, apreensível somente pela inteligência individual. Um exemplo muito conhecido é a piada dos tomates, da qual riem notada e inexplicavelmente as mulheres. Algum não-dito é elaborado pela inteligência feminina que, quase sempre, acha graça da repetição onomatopaica dos tomates atropelados:
Dois tomates atravessando a rua: cuidado! "ploc!"; com o quê? "ploc!".
Mas esse ainda não é o ritornelo poiético: o sentido permanece o mesmo. No ritornelo mais rico, a estrutura repetida, não obstante, muda de sentido, como neste poema de Alberto de Oliveira:
A QUE SE FOI
[frag.]
I
Foi para melhores climas,
Que o médico em voz austera:
– “É já levá-la, dissera,
Para as montanhas de Minas.”
II
Ficou deserta a casinha,
Inda a lembrar tristemente
O vulto esguio da doente
E o longo adeus que lhe ouvira.
III
O noivo, que mal sabia
Da noiva a sorte funesta,
Com o coração todo em festa,
De longe a abraçá-la vinha.
IV
Dão-lhe a nova da partida,
E ao verem que lhe rebentam
As lágrimas, acrescentam:
– Foi para melhores climas!
Note-se que o ritornelo muda de sentido mediante os diferentes conteúdos das estrofes. Na primeira estrofe, predomina o sentido de deslocamento geográfico; na última, o sentido de passagem/morte. É uma mudança semântica implícita, conotativa e absolutamente atrelada aos entendimentos subjetivos, emotivos e afetivos, apreensível somente pela inteligência individual, e não pela estrutura. Guatarri parece querer categorizar tal feição como "ritornelo complexo", mas, diferentemente do sintoma originário em poesia, atribui à estrutura o mérito das mudanças, e não às veleidades subjetivas.
Pondo, assim, a subjetividade à mercê do entorno, dos "universos referenciais", Guatarri conclui que "a enunciação se encontra descentrada em relação à individuação humana. Ela se torna correlativa não somente à emergência de uma lógica de intensidades não-discursivas, mas igualmente a uma incorporação-aglomeração pática, desses vetores de subjetividade parcial [pré-pessoal, polifônica, coletiva e maquínica]". Se o homem não mais possui linguagem, não lhe resta nada: é um "des-habitante", não tem casa. Assim, é inevitável chegar ao mau entendimento de poiesis. Atacando Heidegger, Guatarri acredita que "o Ser é como um aprisionamento que nos torna cegos e insensíveis à riqueza e à multivalência dos Universos de valor que, entretanto, proliferam sob nossos olhos." E continua: "não existe, insisto, um Ser já aí, instalado através da temporalidade". Se não há Dasein, tudo é, está e está sendo Essência, o que não é verdade: isto é um reducionismo a abstrações, é metafisicizar o pensamento heideggeriano, porque existe a insistência ec-stática no cumprimento do destino, salto instaurador no qual nos apropriamos do que nos é próprio, na e pela nossa linguagem.
É triste ver o pensamento de Guatarri beirando o determinismo: "o ser, por mais longe que se busque sua essência, resulta de sistemas de modelização operando tanto ao nível da alma quanto do socius ou do cosmos".
Como se pode revitalizar a subjetividade "não mais dada como um em si, mas face a processos de autopoiese", afirmar que "cada indivíduo, cada grupo social veicula seu próprio sistema de modelização da subjetividade" e depois entregá-la, não em condição circunstancial mas essencial, à reificação, ao reflexo do entorno, ao "agenciamento maquínico"? Como se pode elogiar a ecologia plena (do meio ambiente, do socius e da psique), dita ecosofia, fundamental para "a promoção de uma nova arte de viver em sociedade", para "uma re-singularização da subjetividade", para a "promoção da condição feminina" e depois subordiná-la "a uma mesma categoria de máquina abstrata e autopoiética que engendra as objetidades-sujeitidades de um tempo que se instaura no cruzamento de componentes engajados em processos de heterogênese"?
Precisamos acreditar que a subjetividade não só persiste, mas resiste diante de um mundo reificador. Precisamos diferenciar a Natureza e o nosso olhar, bem como, principalmente, diferenciar Natureza e Civilização. Com a Natureza, devemos aprender a (con)viver-nos nela; com a Civilização, a preservar-nos nela. O ritornelo poiético muda de sentido.
As primeiras páginas são valiosíssimas porque tentam justificar a permanência do sujeito, embora vertido para o conceito de subjetividade. Aliás, a discussão epistemológica talvez tenha sufocado a mensagem: Guatarri propôs a adoção do conceito de "agenciamentos", a revisão do conceito de "Universos", a crítica ao conceito de "território/territorialização/desterritorialização", um novo uso do conceito de "ritornelo" e um mau entendimento do conceito de poiesis e autopoiesis. Quanto aos primeiros conceitos: não é precisado o que seja "agenciamento"; é confusa a diferença entre "universo" e "território". Sobre os dois últimos, porém, sinto-me mais à vontade para falar, pois Guatarri os tomou da teoria literária e da filosofia de Heidegger.
O ritornelo é uma repetição estrutural de um(ns) versos(s) no intuito de provocar um efeito significativo a partir das diferenças semânticas intuídas com os conteúdos entre os ritornelos. Em outras palavras, o ritornelo muda de sentido em cada aparição. Não são jamais "territórios existenciais coletivos" onde "um módulo temporal catalisador nos mergulhará na tristeza ou na alegria". Pelo contrário, os ritornelos são essencilamente subjetivos, implícitos e conotativos. A partir do já dito, isto é, do "território existencial coletivo", acontece o não-dito, apreensível somente pela inteligência individual. Um exemplo muito conhecido é a piada dos tomates, da qual riem notada e inexplicavelmente as mulheres. Algum não-dito é elaborado pela inteligência feminina que, quase sempre, acha graça da repetição onomatopaica dos tomates atropelados:
Dois tomates atravessando a rua: cuidado! "ploc!"; com o quê? "ploc!".
Mas esse ainda não é o ritornelo poiético: o sentido permanece o mesmo. No ritornelo mais rico, a estrutura repetida, não obstante, muda de sentido, como neste poema de Alberto de Oliveira:
A QUE SE FOI
[frag.]
I
Foi para melhores climas,
Que o médico em voz austera:
– “É já levá-la, dissera,
Para as montanhas de Minas.”
II
Ficou deserta a casinha,
Inda a lembrar tristemente
O vulto esguio da doente
E o longo adeus que lhe ouvira.
III
O noivo, que mal sabia
Da noiva a sorte funesta,
Com o coração todo em festa,
De longe a abraçá-la vinha.
IV
Dão-lhe a nova da partida,
E ao verem que lhe rebentam
As lágrimas, acrescentam:
– Foi para melhores climas!
Note-se que o ritornelo muda de sentido mediante os diferentes conteúdos das estrofes. Na primeira estrofe, predomina o sentido de deslocamento geográfico; na última, o sentido de passagem/morte. É uma mudança semântica implícita, conotativa e absolutamente atrelada aos entendimentos subjetivos, emotivos e afetivos, apreensível somente pela inteligência individual, e não pela estrutura. Guatarri parece querer categorizar tal feição como "ritornelo complexo", mas, diferentemente do sintoma originário em poesia, atribui à estrutura o mérito das mudanças, e não às veleidades subjetivas.
Pondo, assim, a subjetividade à mercê do entorno, dos "universos referenciais", Guatarri conclui que "a enunciação se encontra descentrada em relação à individuação humana. Ela se torna correlativa não somente à emergência de uma lógica de intensidades não-discursivas, mas igualmente a uma incorporação-aglomeração pática, desses vetores de subjetividade parcial [pré-pessoal, polifônica, coletiva e maquínica]". Se o homem não mais possui linguagem, não lhe resta nada: é um "des-habitante", não tem casa. Assim, é inevitável chegar ao mau entendimento de poiesis. Atacando Heidegger, Guatarri acredita que "o Ser é como um aprisionamento que nos torna cegos e insensíveis à riqueza e à multivalência dos Universos de valor que, entretanto, proliferam sob nossos olhos." E continua: "não existe, insisto, um Ser já aí, instalado através da temporalidade". Se não há Dasein, tudo é, está e está sendo Essência, o que não é verdade: isto é um reducionismo a abstrações, é metafisicizar o pensamento heideggeriano, porque existe a insistência ec-stática no cumprimento do destino, salto instaurador no qual nos apropriamos do que nos é próprio, na e pela nossa linguagem.
É triste ver o pensamento de Guatarri beirando o determinismo: "o ser, por mais longe que se busque sua essência, resulta de sistemas de modelização operando tanto ao nível da alma quanto do socius ou do cosmos".
Como se pode revitalizar a subjetividade "não mais dada como um em si, mas face a processos de autopoiese", afirmar que "cada indivíduo, cada grupo social veicula seu próprio sistema de modelização da subjetividade" e depois entregá-la, não em condição circunstancial mas essencial, à reificação, ao reflexo do entorno, ao "agenciamento maquínico"? Como se pode elogiar a ecologia plena (do meio ambiente, do socius e da psique), dita ecosofia, fundamental para "a promoção de uma nova arte de viver em sociedade", para "uma re-singularização da subjetividade", para a "promoção da condição feminina" e depois subordiná-la "a uma mesma categoria de máquina abstrata e autopoiética que engendra as objetidades-sujeitidades de um tempo que se instaura no cruzamento de componentes engajados em processos de heterogênese"?
Precisamos acreditar que a subjetividade não só persiste, mas resiste diante de um mundo reificador. Precisamos diferenciar a Natureza e o nosso olhar, bem como, principalmente, diferenciar Natureza e Civilização. Com a Natureza, devemos aprender a (con)viver-nos nela; com a Civilização, a preservar-nos nela. O ritornelo poiético muda de sentido.
terça-feira, 11 de setembro de 2007
O Veto Incondicional
Quando lembro os grandes ícones do século XX, minha impressão é de que insistem os Titãs em permanecer no Olimpo. Ou será que a plêiade de Zeus se arrependeu da retaliação? Fato é que a crise dos referenciais força o culto totêmico de algumas balizas estruturantes do velho Novo Mundo, ainda consideradas seguras, apegando-se ao evidente, ao estabelecido, como remate de males: o povo tende à iconoclastia do vigente e à consagração do mítico ou primitivo. Com toda dose de irracionalidade, desautoriza-se o estabelecimento (e o esclarecimento), qual uma autodefesa desesperada, violenta e ineficaz -- pelo grito. É a tendência ao autoritarismo, agravado pela dificuldade de exercer o mea culpa. O medo é tão vivido em nossos dias que os filmes de terror não mais assustam. O medo da mudança -- a de dentro e a de fora.
sábado, 8 de setembro de 2007
Ecologia é Visão de Mundo
O assunto mais em voga nesse momento é a Ecologia, por conta dos problemas ambientais, sobretudo climáticos, apontados pelo vice-presidente dos EUA, Al Gore.
Com nossa herança tecnicista, esgotamos nossos esforços na inútil lista de "isso" e "aquilo". Tão alienados na quantificação, nós esquecemos que qualquer solução será uma viagem ecológica e estará para além do rol interminável das causas e efeitos: o homem polui, e o planeta agoniza. Embora clichê, a sentença não indica nenhum rumo para uma convivência melhor em nosso planeta.
A tão sonhada Pós-Modernidade pode finalmente ser vivida, quem sabe, nessa nova Era Ecológica por vir, caso não termine em mais um fracasso de utopias. A superação da lógica moderna não acontecerá, como não aconteceu, com as rupturas que alimentam suas engrenagens voltadas ao funcionamento da máquina, do capital e da razão. Ainda que conciliemos desenvolvimento econômico (no sentido originário dessa palavra) e harmonia com a natureza, remediando a catástrofe, permaneceremos amargando a decadência da civilização tecnolóide até, não duvidemos, um apocalipse previsto em alguma ficção científica hollywoodiana. Somente um abandono contundente das práticas iluministas, positivistas e mercantilistas pode descartar a viciosa Modernidade tardia.
Para a Ecologia de fato vingar, precisamos vivenciá-la -- e isso implica mudarmos nosso modus vivendi. Interesses, preocupações e atividades devem abandonar a bússola do mercado e da indústria para buscarem como guia a harmonização do homem em seu habitat, e isso só é possível quando entendermos a importância da natureza, como corpo de criação do Criador, portanto, como criatura divina, em eterno diálogo com a transcendência. Afastarmos da natureza é nos alienarmos cada vez mais em nossas engrenagens reificantes.
Com nossa herança tecnicista, esgotamos nossos esforços na inútil lista de "isso" e "aquilo". Tão alienados na quantificação, nós esquecemos que qualquer solução será uma viagem ecológica e estará para além do rol interminável das causas e efeitos: o homem polui, e o planeta agoniza. Embora clichê, a sentença não indica nenhum rumo para uma convivência melhor em nosso planeta.
A tão sonhada Pós-Modernidade pode finalmente ser vivida, quem sabe, nessa nova Era Ecológica por vir, caso não termine em mais um fracasso de utopias. A superação da lógica moderna não acontecerá, como não aconteceu, com as rupturas que alimentam suas engrenagens voltadas ao funcionamento da máquina, do capital e da razão. Ainda que conciliemos desenvolvimento econômico (no sentido originário dessa palavra) e harmonia com a natureza, remediando a catástrofe, permaneceremos amargando a decadência da civilização tecnolóide até, não duvidemos, um apocalipse previsto em alguma ficção científica hollywoodiana. Somente um abandono contundente das práticas iluministas, positivistas e mercantilistas pode descartar a viciosa Modernidade tardia.
Para a Ecologia de fato vingar, precisamos vivenciá-la -- e isso implica mudarmos nosso modus vivendi. Interesses, preocupações e atividades devem abandonar a bússola do mercado e da indústria para buscarem como guia a harmonização do homem em seu habitat, e isso só é possível quando entendermos a importância da natureza, como corpo de criação do Criador, portanto, como criatura divina, em eterno diálogo com a transcendência. Afastarmos da natureza é nos alienarmos cada vez mais em nossas engrenagens reificantes.
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
A Pseudotransformação
Nossa contemporaneidade está repleta de inseguranças porque as pessoas não se reconhecem em si mesmas pela falta de valores, que são construídos mediante nosso entendimento dos conceitos atualmente desestruturados.
Há quem tenha visto nessa situação o início de uma nova era, a pós-modernidade. Mas a carência de conceitos e, portanto, de valores, não nos trouxe nenhum salto para uma nova época, e sim, nos aprisionou na decadência de uma civilização já conhecida.
Muitos acreditaram que novos paradigmas seriam criados para um mundo novo, graças à necessidade de se elaborarem novos conceitos. Mas o fato é que essa elaboração não ocorreu; e, em conseqüência, houve um retrocesso: o apego aos conceitos mais básicos, acirrando seus significados em direção a dogmas e doutrinas.
A flexibilização é mais do que necessária. Hoje precisamos abrir nossos horizontes para o novo e o diferente, mas só poderemos abri-lo se tivermos um. E esse horizonte é adquirido na visitação à herança cultural, isto é, à bibliografia disponível.
As propostas e metodologias circulares da filosofia foram as que sobreviveram com mais vigor em nossos dias. Por isso, precisamos circular, ao invés de ficarmos parados.
Há quem tenha visto nessa situação o início de uma nova era, a pós-modernidade. Mas a carência de conceitos e, portanto, de valores, não nos trouxe nenhum salto para uma nova época, e sim, nos aprisionou na decadência de uma civilização já conhecida.
Muitos acreditaram que novos paradigmas seriam criados para um mundo novo, graças à necessidade de se elaborarem novos conceitos. Mas o fato é que essa elaboração não ocorreu; e, em conseqüência, houve um retrocesso: o apego aos conceitos mais básicos, acirrando seus significados em direção a dogmas e doutrinas.
A flexibilização é mais do que necessária. Hoje precisamos abrir nossos horizontes para o novo e o diferente, mas só poderemos abri-lo se tivermos um. E esse horizonte é adquirido na visitação à herança cultural, isto é, à bibliografia disponível.
As propostas e metodologias circulares da filosofia foram as que sobreviveram com mais vigor em nossos dias. Por isso, precisamos circular, ao invés de ficarmos parados.
sábado, 1 de setembro de 2007
Superando a crise dos referenciais
Em meados do século XX, os intelectuais da Desconstrução, como Roland Barthes, Michel Foucault e Jacques Derrida, lançaram um programa que basicamente denunciava ou adensava uma crise na linguagem: os conceitos foram fragilizados pela fragmentação do mundo moderno e quedam ou desconhecidos ou erroneamente entendidos.
Embora esses autores franceses afirmassem que não objetivavam a destruição dos conceitos, a percepção deles sobre um acontecimento não o poderia mudar a priori, mesmo se quisessem. E foi o caso: pretendiam reformular as idéias e os métodos de conhecimento.
Mas não foi suficiente a proposta de nos devolver à "lógica do perdão", já criticada por Niezsche, que escravizava o homem numa ciranda de culpas e dívidas com a força dialética e transcendente. Isso intimida o ser humano a buscar sua liberdade, e sua potência de linguagem é freada e censurada pela opressão do tabu e da obediência ignorante, baseada no medo. Como defesa, alimenta-se a arrogância para disfarçar a vulnerabilidade das incertezas pessoais.
Restou, disso tudo, uma crise dos referenciais, pois a última paragem da trilha desconstrutivista nos remetia à necessidade religiosa, que, se ainda necessidade, está por se fazer.
Além disso, numa dinâmica de indústria cultural que aliena as massas, a opção pela desestruturação dos conceitos prejudicou ainda mais a autodeterminação do indivíduo, quer dizer, a afirmação de si mesmo, pois o poderio do mass media já corroía a linguagem e o pensamento em direção à homogenização acrítica.
Por isso, o salto necessário era solidificar os conceitos para arriscar o debate, ainda que modesto, pelos velhos mecanismos da razão, objetivando o esclarecimento (iluminismo) do ser, para uma futura contestação. Como não se procedeu dessa forma, surgiu uma geração cética, que não acredita em quase nada, mesmo mediante condicionantes factuais, como consequência da carência de referenciais e da segurança ontológica. Sem consciência de seu desespero, a massa se apega a conceitos mais elementares e os tranforma em totem, procurando ritualizar e cultuar religiosamente o símbolo. Irrefletidamente, a massa outorga seus parâmetros inflexíveis, que promovem, evidentemente, a exclusão da diferença, isto é, o tabu. A tendência é o renascimento do nazismo em suas premissas de superioridade e de susbstituição da regra entendida pela norma adorada, quer dizer, da placa de trânsito pela hieráldica das figuras. Mesmo não sabendo o que é a suástica, ela deve ser amada e reverenciada.
Precisamos refazer esse descaminho para tentar um rumo. A tolerância é mais relevante do que o perdão, nessas circunstâncias aliciadas ao totem. Se percebemos o acirramento das divergências, é porque sacralizamos cada vez mais o nosso totem e desprezamos ou maldizemos o totem dos outros, que enxergamos como tabu. Somente o diálogo reverte esse processo, mas entre pessoas melindrosas de suas fragilidades e desconhecimentos internos, haverá diálogo?
"Conhece-te a ti mesmo".
Embora esses autores franceses afirmassem que não objetivavam a destruição dos conceitos, a percepção deles sobre um acontecimento não o poderia mudar a priori, mesmo se quisessem. E foi o caso: pretendiam reformular as idéias e os métodos de conhecimento.
Mas não foi suficiente a proposta de nos devolver à "lógica do perdão", já criticada por Niezsche, que escravizava o homem numa ciranda de culpas e dívidas com a força dialética e transcendente. Isso intimida o ser humano a buscar sua liberdade, e sua potência de linguagem é freada e censurada pela opressão do tabu e da obediência ignorante, baseada no medo. Como defesa, alimenta-se a arrogância para disfarçar a vulnerabilidade das incertezas pessoais.
Restou, disso tudo, uma crise dos referenciais, pois a última paragem da trilha desconstrutivista nos remetia à necessidade religiosa, que, se ainda necessidade, está por se fazer.
Além disso, numa dinâmica de indústria cultural que aliena as massas, a opção pela desestruturação dos conceitos prejudicou ainda mais a autodeterminação do indivíduo, quer dizer, a afirmação de si mesmo, pois o poderio do mass media já corroía a linguagem e o pensamento em direção à homogenização acrítica.
Por isso, o salto necessário era solidificar os conceitos para arriscar o debate, ainda que modesto, pelos velhos mecanismos da razão, objetivando o esclarecimento (iluminismo) do ser, para uma futura contestação. Como não se procedeu dessa forma, surgiu uma geração cética, que não acredita em quase nada, mesmo mediante condicionantes factuais, como consequência da carência de referenciais e da segurança ontológica. Sem consciência de seu desespero, a massa se apega a conceitos mais elementares e os tranforma em totem, procurando ritualizar e cultuar religiosamente o símbolo. Irrefletidamente, a massa outorga seus parâmetros inflexíveis, que promovem, evidentemente, a exclusão da diferença, isto é, o tabu. A tendência é o renascimento do nazismo em suas premissas de superioridade e de susbstituição da regra entendida pela norma adorada, quer dizer, da placa de trânsito pela hieráldica das figuras. Mesmo não sabendo o que é a suástica, ela deve ser amada e reverenciada.
Precisamos refazer esse descaminho para tentar um rumo. A tolerância é mais relevante do que o perdão, nessas circunstâncias aliciadas ao totem. Se percebemos o acirramento das divergências, é porque sacralizamos cada vez mais o nosso totem e desprezamos ou maldizemos o totem dos outros, que enxergamos como tabu. Somente o diálogo reverte esse processo, mas entre pessoas melindrosas de suas fragilidades e desconhecimentos internos, haverá diálogo?
"Conhece-te a ti mesmo".
A Redenção da Utopia
Se conferirmos o que é utopia, identificaremos que ela está projetada, isto é, idealizada e lançada, como expectativa, para o futuro. É necessário trazê-la de uma vez por todas para nossa realidade, ou melhor, transformar nossa realidade na utopia. Se mudarmos nossos hábitos e pensamentos em direção ao que nós esperamos, não precisaremos esperar mais. E a utopia deixará de existir, tal qual um sonho, para se tornar realidade.
Foi isso que John Lennon havia dito ao criar a música Imagine. No entanto, como realizar este sonho, esta utopia? Só há um caminho: o autoconhecimento, quer dizer, o conhecimento de nós mesmos para que possamos enxergar o que nos impede de crescer para efetivamente nos livrar das amarras que nos impedem de ser o que gostaríamos de ser.
Se sairmos um pouco de nosso egoísmo, perceberemos que somos responsáveis, pelo menos em parte, por não vivermos a utopia. Roubar, matar, estrupar não são os únicos impeditivos, e todas as ações negativas são praticadas pelo homem, por isso existem como palavras: as palavras apenas nomeiam o que existe.
Foi isso que John Lennon havia dito ao criar a música Imagine. No entanto, como realizar este sonho, esta utopia? Só há um caminho: o autoconhecimento, quer dizer, o conhecimento de nós mesmos para que possamos enxergar o que nos impede de crescer para efetivamente nos livrar das amarras que nos impedem de ser o que gostaríamos de ser.
Se sairmos um pouco de nosso egoísmo, perceberemos que somos responsáveis, pelo menos em parte, por não vivermos a utopia. Roubar, matar, estrupar não são os únicos impeditivos, e todas as ações negativas são praticadas pelo homem, por isso existem como palavras: as palavras apenas nomeiam o que existe.
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