Hoje, 5 de novembro, passei o dia no cinema atendendo ao apelo da Mostra de Filmes Nacionais, que ofereceu ingresso a R$ 2,00. O público realizou sua histeria midiática em torno do título Tropa de Elite, que foi recebido como última palavra (e por isso mais dona da verdade) sobre violência urbana no Brasil e a Guerra do Tráfico, que determinam, querendo-se ou não, grande parte de nosso momento cotidiano atual.
Ora, o filme se arroga como grande conhecedor do metiê do tráfico, pondo em ação três grupos sociais: os pobres (favelados) que administram o tráfico, a classe média (jovens consumidores e pais tanto mais vítimas quanto mais cegos) e a polícia (a corrupta, dispersada nos escalões de praxe, e a "justiceira" - heróis do filme -, representada pelos integrantes da divisão especial denominada BOP).
A trama se faz nos atritos de visões-de-mundo radicalmente distintas entre os três grupos. Por exemplo, os jovens da classe média se enxergam como vítimas da violência policial contra seus direitos de ir e vir (e nisto eles incluem o uso de drogas, embora legalmente vedado - criando um paradoxo). Os pais, por sua vez, sem conhecimento minimamente estruturante sobre o assunto, permanecem atrás de uma peneira moral tão rígida quanto obsoleta, para tapar um enorme sol que encontrou sua eclipse crônica.
Do outro lado, os policiais, entre os quais o narrador, consideram os jovens usuários como o sustentáculo do crime organizado de drogas, os verdadeiros finaciadores do tráfico armado.
Já os traficantes apresentam uma ética totalmente atípica: vale tudo contra a polícia. Digo atípica não porque seja imoral, como de fato o é, mas porque até os aliados viram inimigos, sem direito à explicação. Foi o que aconteceu com a ONG de responsabilidade social - outra ética, assim como a dos pais, obsoleta - diante do infortúnio: os agentes mantenedores eram universitários e acabaram adentrando na favela, sem saber, um policial (que preferencialmente deve esconder sua profissão), que era colega de turma na faculdade.
A ordem é a do ódio, como se vê. A polícia odeia o tráfico, isto é, tanto o traficante quanto o jovem de classe média consumidor; o traficante repudia a polícia e com isso qualquer envolvimento, ainda que incidental, mesmo dos usuários; o consumidor hostiliza a polícia e, quando sabe do "vale tudo" contra a polícia (na dimensão macro-metonímica do Estado), enxerga a segregação, pagando com sua vida uma infeliz coincidência sem espaço para arrependimento, como o fato de morrer por ter, sem saber, um colega de faculdade policial.
Nesse caso, evidentemente, não há espaço para o a-topos, elemento por vezes conciliador, por vezes problematizador, por vezes dialético (não raro propulsor da circularidade). Isto é, o policial que estudava na universidade da classe média, teve de se afirmar pertencente a um grupo, não podendo ficar naquele "entre" polícia e jovens de classe média consumidores. Diante da morte (tomada nesta frase, não exclusivamente, como revelação do oculto), os jovens de classe média consumidores enxergam finalmente o indesejável: o abismo entre traficante e consumidor. Quer dizer, as fronteiras são fechadíssimas.
A divisão especial da Polícia Militar, conhecida exatamente como Tropa de Elite, cuja sigla oficial na Corporação Militar é BOPE, ocupa a posição de herói porque a lei que impera aqui é a do mais forte. Parece que todos estão satisfeitíssimos em conhecer quem, circunstancialmente, exercer o poder da força. E já esquecemos Rousseau assim tão facilmente, nesse retrocesso?
Parece que todos perderam completamente a noção do que seja selvageria, genocídio, matança e violência, pois estão interessados em conhecer quem impera na barbárie.
De minha parte, como quase sempre, estou numa ínfima minoria que pensa diferente até mesmo da "segunda via" e às vezes da "terceira via". Achar os culpados, os mocinhos e os bandidos não vai resolver o problema, porque o problema é identificá-los. Será que ninguém percebe isso? Enquanto houver essa estrutura, o mocinho tem o direito de matar o bandido, pois o Bem deve expurgar o Mal, enquanto o usuário é o culpado de tudo isso, então paga penitências, que não são religiosas, mas carcereiras ou mortíferas. Mas o que todos estão esquecendo é que o bandido apela para a auto-defesa, que se confunde com instinto de sobrevivência frente ao perigo fatal (não importando se é justo ou não) - afinal, ninguém quer morrer, mesmo que você torça para tanto.
Quem sai ganhando? Engana-se quem pensa o BOPE, pois vivem arriscando suas vidas (tomando pílulas, estressados, paranóicos), sem nenhum superpoder extraterrestre, pois não estamos na ficção dos quadrinhos. Tão bom seria, não é mesmo, uma Tropa de Elite formada por Super-Homem, Batman, Acquaman e toda a Liga da Justiça, quase imortais, contra Coringa, Lex Lutor, e Cia Ltda., vilões sem pai, nem mãe, nem povo.
Precisamos deixar de viver os quadrinhos, e para isso temos que acabar com a tripartição dos grupos. E como a polícia deixa de ser o mocinho e o traficante deixa de ser o bandido? Isso todo mundo sabe, mas ninguém quer dizer, nem muito menos fazer. Preferem, de modo geral, a ética rígida e obsoleta. Tenho certeza de que o ano 3000 nos verá como uma barbárie estúpida e comezinha, incapaz de aceitar mudanças, exatamente como enxergamos o ano 1000, cheio de inquisidores intransigentes sustentados pelo interesse do moralismo mais tacanha de todos os tempos: o índex. Mas temos o nosso: não de livros (porque não é necessário), mas de temas (porque aqui já se evitam os livros). É duro dizer, mas somos mais radicais: somos nossos próprios inquisidores. Proibimos um a priori sob amplo e irrestrito consenso.
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
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