terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Terceiro Milênio: pós-modernidade como projeto (I)

Não há dúvidas de que o pensamento alemão, via Habermas, vem apostando numa modernidade moribunda, que deve ser vivida para evitar fontes e formas de escapismo auto-alienantes. Quando esse ciclo acabará? O que nos faz presos a uma situação histórica purgativa, sem perspectivas de resolução?

A outra opção é o pensamento daqueles que afirmam haver uma pós-modernidade instaurada, desde uma data ainda não muito bem conciliada, mas no último quartel do século XX. Não há "pós" sem o encerramento do antecessor: só há pós-Comunismo porque esse regime caiu; assim como pós-Absolutismo, pós-Modernismo, pós-Colonialismo, pós-Imperialismo. Como, então, resolver aporias qual pós-Humanismo, pós-Industrialismo, pós-Capitalismo, se Humanismo, Industrialismo e Capitalismo ainda acontecem na nossa esfera pública?

O grande sinal verdadeiramente contrapositor desse tempo morreu abortado pelo consumo de drogas: a Contracultura, que surgiu muito incipiente e geniosa em meio a uma ânsia vital e irrefreada por liberdade, contra a opressão generalizada típica desse momento histórico, cujo documento comprobatório são os regimes autoritários espalhados pelo Ocidente e Oriente, sob uma bandeira vermelha - como o sangue dos rebeldes -, ou repressivos e conservadores, sob uma bandeira da águia - como o déspota machiavélico.

Parece que a humanidade ainda não assimilou a bofetada da Dialética do Esclarecimento. Parece que, a partir de 1940, o pensamento humano, de modo geral representado mal ou bem pelas universidades e academias, vem lastimando uma ordem, uma lógica do fracasso. Alarmando os malefícios do Esclarecimento, uma extensa bibliografia foi dedicada à explicação de quão terrível o Ocidente, imbricado com o sistema capitalista, tem sido para os povos, particularmente no nível individual.

Creu-se que a exponenciação colossal da situação implicaria a geração de uma nova era: a pós-modernidade. Ora, não há nada de "pós" numa fase extremamente adensada; pelo contrário: vejo essa fase como essencial, característica e representativa.

A modernidade vem a lume como projeto explícito, diligente e estruturado com os românticos alemães, depois da Querela dos Antigos e Modernos nos Setecentos. Se recorrermos a ele, veremos que a engrenagem do sistema é a ruptura, daí o novo como valor. Não será com uma ruptura que encerraremos seu mecanismo vital, não é mesmo? Ao contrário, estaríamos perpetuando sua lógica, em direção ao revigoramento da modernidade. Deslocando a questão desse eixo teórico para um enorme pragmatismo/empirismo, há quem sustente a pós-modernidade em termos de avanços tão intensos que representariam um salto para outra situação, outra época, tomados como exemplos o computador, a cibernética, clonagem, etc. - os últimos produtos tecnológicos. Aqui, o critério recai sobre a Tecnologia, isto é, a feição da techné.

Seria possível reconhecer o acerto dessa fundamentação se não olhássemos para trás e percebêssemos grandes saltos dessa qualidade, sem, no entanto, implicar o esgotamento da modernidade. Se da televisão para o computador pessoal, se da maquinaria para a cibernética robótica, se das seleções de Mendel para a clonagem, reconhecemos evidentemente avanços muito, mutíssimo intensos, o que diremos da carroça para o carro, do rádio para a televisão, do quadro para a fotografia? Esquecemos de nos auto-reconhecer na diferença carroça/carro? Claro que não; o que acontece é que essa visão, essa nova proposta, se apegou por demais à aparência.

Eu insisto na opinião de que a grande questão é (sempre) de linguagem. O próprio Romantismo de Jena, na voz de Schlegel, nos dá as pistas. É a "arte futura", que chegaria para completar o espírito moderno, levando-o a uma nova experiência existencial, a uma nova conjuntura. Portanto, através dessa categoria, Schlegel vislumbrava um projeto moderno para além da modernidade conhecida e vivida: a pós-Modernidade. Em que consistia esse projeto (permita-me a redundância para clarear), "projeto de futuro"? Schlegel já havia intuído, no começo dos Oitocentos, a estrutura viciada da modernidade na absorção da novidade e da ruptura, já que ela é sempre sinal dos novos tempos e dos tempos recentes. Para evitar o ciclo, Schlegel propõe adotar uma nova linguagem (e logos): a dialética entre o discurso moderno inerente ao homem moderno e a visitação ao pensamento antigo-grego, produzindo uma linguagem autêntica e diferenciada, desestabilizando, talvez sem saber, a estrutura moderna de pensamento pela influência antigo-grega, obtida a partir de releituras criativas e criadoras de uma nova mitologia. Que tipo de mitologia seria essa? Ora, é a mitologia pós-moderna, cujos esboços nos foram dados pelo Parnasianismo, mormente do Brasil.

Considero que estamos no ensejo de intensificar esse diálogo entre modernidade e antiguidade (vide o interesse pelos filósofos socráticos e pré-socráticos), originando, inevitavelmente, uma nova e outra linguagem, uma nova e outra mitologia, um novo e outro sistema, uma nova e outra cartografia, um novo e outro discurso, etc., etc., etc. A urgência de nossas necessidades e premências indicam prospectivamente que esse caminho será a Ecologia, trilhada pelo homem como terceira via, o "projeto de futuro", redimensionando as bases modernas radicalmente (por isso instaurando finalmente a tão falada pós-modernidade).

O apelo veio do seio de Gaia, convocando toda a horda dos "deuses desertores" (para usar a expressão de Hölderlin) a um reclame pela convivência pacífica entre Homem e Natureza. Por isso, o projeto moderno, teorizado por Schlegel, para mim ganha nesse momento a chance de se realizar; ou melhor, nós é que ganhamos, pois poderemos sair da selvageria capitalista e da barbárie das massas. É nesse sentido que posiciono o Brasil como a maior potência (potencial) pós-moderna, por ter a oportunidade de buscar o direcionamento da Ecologia nos seus biomas como Amazônia, Cerrado, Caatinga e Pampa.

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