quinta-feira, 3 de abril de 2008

A Vingança de Gutemberg: pós-modernidade como projeto (IV)

Quem poderia imaginar que o primo pobre do Terceiro Milênio, excluído dos meios infovirtuais, teria um lugar privilegiado na produção cultural? O livro, esse objeto tido como "obsoleto", parece adquirir todo o vigor de produto cultural (produção humana/ humanizada), resistindo ao controle do imaginário e do pensamento.

De todos os produtos da cultura, são os audiovisuais os que padecem na tirania da Técnica, cujo desfecho, profetizado por Marx, potencializa a reificação do produto, a menos valia do trabalho e a desumanização do homem. O sistema capitalista é a vigência da Técnica, por isso as produções culturais sofrerem essa alienação. E quando são artes, agonizam a perda da aura.

Até mesmo os artistas midiáticos estão reclamando. Seja áudio, seja visual, a produção cultural está conhecendo no suporte infovirtual uma linguagem nociva aos direitos autorais e ao custeio do artista e do produtor. Quando muito, são respeitados num barateamento inescrupuloso, para depois serem violados nas comunidades de partilhamento de acervos. A pirataria é apenas adiada e vem se afirmando um mal inevitável.

Já a Galáxia de Gutemberg, discriminada e banida do mundo infovirtual, enfrenta o problema da reprodução (xerox) ilegal, mas tal mecanismo não dispõe da pulverização própria do sistema de internet, pelo qual todas as informações são acessíveis imediatamente para todo o mundo a qualquer tempo.

Se os escritores se juntarem e buscarem fortalecer suas organizações representativas e corporações de classe, podem firmar acordos e contratos mais interessantes para o livro, o editor e o próprio escritor.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Led Zeppelin: pós-modernidade como projeto (III)

Será que existe um atopos maior do que Led Zeppelin? Genericamente identificado como rock, outro lugar, no entanto, seria difícil de se pensar. Isto quer dizer que LZ só permite essa associação com o rock porque este é a grande abertura para o fundamento. Ora, o fundamento, por si só, ainda que não sabido do que, é uma questão.

Rock, em língua inglesa, quer dizer rocha. Habitualmente atribuído à "dureza" do estilo, na verdade "rock" diz uma questão: o mineral. O grande gênio sabe que o mistério da primordialidade se confunde com o ser rocha, no sentido de que a "massa informe" ovidiana, se mais do que pantanosa, era a terra, terra bruta, antes da água. Como disse João Cabral: "no deserto, Anfion": sem nada mais do que terra, o poeta já é "no mineral". Na metáfora do penetrar a rocha se desvela escavação rumo ao originário. "Faz milhões de tempos/vezes desde o rock n' roll", diz uma das músicas do LD. Por várias formas, dá-se esse através da pedra, como imagem do originário. O tempo é uma experienciação unidimensional, a partir do originário, imageticamente ficcionalizado pelo próprio "rock": pedra, mineral.

Sobre o originário, não bastasse, LD também acontece originariamente. Na encruzilhada dos caminhos musicais, artísticos, humanos, explode uma música híbrida, e tenaz. LD é uma reposição do próprio rock n' roll, e da música em geral. Na conjugação de blues, jazz, pop e música erudita de todo o tipo, principalmente Mozart, Bach e compositores exóticos ou orientais, LD é uma experienciação que pensa sobre si mesma, enquanto arte que é, pensando, portanto, inclusive a própria música enquanto arte: "Para ser 'rock' (rocha) e não 'roll' (mole)". Na dimensão da arte acontece o homem: "eu sou um cara simples e vivo 'from' (a partir do) dia 'to' (para o) dia / um raio de sol beija minha fronte e derrama meu blues". É importante ressaltar a opção por "from day to day", pois ainda há "day to day" e "day by day", a mais usual. A escolha da locução adverbial permite o sentido de circularidade que as outras opções não permitem: tendo o dia como origem, viver é lançar-se para o dia, que é o originário - do dia para o dia, ou, quem sabe, o dia pelo dia, como a arte-pela-arte.

Da pedra filosofal, jorra primordialmente o maior dos apelos humanos: "eu vou te dar o meu amor". Interessante perceber que a ordem das citações está decrescendo cronologicamente: "para ser rock e não roll" é de 1972; "vivo do dia para o dia", de 1970; "eu vou te dar o meu amor", de 1969. Nos primórdios da banda, vemos que o apelo humano veio de uma pró-vocação: "quebra de comunicação... sempre a mesma coisa! Estou tendo um ataque de nervos tentando dizer: quero sentir seu adorável charme" (1968). Esse dizer não é o uso corriqueiro da língua, é o falar pela linguagem a essencialidade. Dessa maneira, os quatro discos sem nome da banda LZ realizam o pró-jeto do ser, surgindo "Casas do Sagrado", quinto álbum e primeiro intitulado.

Então, na verdade, não fosse a necessidade de explicar "rock", deveríamos respeitar a gênese da banda: em primeiro, dizer a originariedade, a pró-vocação (1968); em segundo, dizer o apelo, que realiza a pró-vocação (1969); em terceiro, a vida como experieniação de retorno ao originário (1971); finalmente o "rock" como originário (revisitado) que se espraia de diversas maneiras, por diversos tempos.

Mas nada da pós-modernidade ainda foi dito. Desde 1970, LD já trazia a revitalização da mitologia antiga pela linguagem moderna: "o martelo dos deuses vai guiar nossas naus para novas terras / para lutar contra a horda, cantando e gritando: Valhalla, eu estou vindo". Um ano antes, foi gravada "Thank you", que mostra a cópula entre terra e água, "rock n' roll": "As montanhas elevam-se sobre o mar: devem ser você e eu". Eis a dimensão ecológica cantada no vigor do mito, na celebração do rito maior: pró-criação.

A força opressora da indústria cultural se arroga o direito de desafiar LD. LD já é o desafio, antes mesmo de nossa ordem-do-dia ecológica ou "pós-moderna". Robert Plant, como lírico, já enviou seu recado, e no envio deste esteve e continua estando o não-recado (por onde a indústria o enxerga). Jimmy Page, virtuose máximo da guitarra, deixou nos shows uma marca inconfundível justamente porque irrealizável: as recentes remasterizações, finalmente livres do volume alto, já revelam sua insuperabilidade. John Paul Jones é o artífice que, pelo contrabaixo, sustém o caos no mínimo de comunicabilidade (e o grau zero é o mais difícil). E John Bonham é quem dá os sinais da percussão (percutir: o que, antes de repercutir, fala para o redor): por isso, dos quatro é o mais compreendido.

sábado, 8 de março de 2008

Hermenêutica, a única saída: pós-modernidade como projeto (II)

A Hermenêutica veio da escrita monástica, ganhando nova significação. Hoje, a Hermenêutica é a atividade indagadora. Através da pergunta, o ser humano elabora um entendimento sobre o argumento inquirido e o repõe manifestativamente em novas dimensões inauguradas pelo sujeito que pensa. E o que ele pensa? A pergunta e a resposta.

Perguntar é um método de conhecimento. Para os hermeneutas, é o único legítimo, porque sempre mantém diálogos, enquanto dia-lógos (a travessia do conhecimento), entre a inteligência pensante e o objeto pensado. A razão, que é o método iluminista de conhecimento, subordina o objeto ao mero conceito, a uma definição. Desencantando as coisas, o animal racional vê a realidade na ilusão de um austero domínio, alcançado pelo conceito. Se o observado não fornece mais perigo, é já conhecido, então "tá tudo dominado". O que é uma bola? É um objeto esférico, geralmente para jogos esportivos. A serventia é que denota a vontade humana de subjugar, fazendo das coisas um servente, um servo, um vassalo. Mas os planetas são bolas também, e estas amedrontaram o homem durante muitos séculos.

Responder, diferentemente de perguntar, pode se dar de duas maneiras. No racionalismo tecnicista, responder é método de dominação e reificação. Mas, na Hermenêutica, responder é admitir que as coisas são fontes inesgotáveis de conhecimento, e, por isso, o aprendizado é permanente. O animal racional se ilude em ser o dominador de tudo, até surgir um terremoto ou uma enchurrada que destroem sua ambição imperialista e senhorial. Daí ficam todos preocupados com a ecologia, numa espécie de mea culpa.

Não podemos prosseguir assim. Construímos para nós um campo de concentração nazista contra nós mesmos, e depois reclamamos: mas como só temos pão e água? Pão e circo, talvez, porque como disse Cecília Meireles, "a chuva chove", e pra berber água "se vira nos trinta, malandro". O entendimento nasce quando perguntamos: por que estamos assim? Responder há uma crise: isso é reduzir a conceito, para não ter medo. Isso é racionalismo. Responder como mudar: isso é hermenêutica. Porque a mudança é permanente, é uma missão. E responder permanentemente é sempre perguntar, em diferentes modos de falar (a pergunta e a resposta).

A recuperação da dimensão humana passa pela mudança de pensamento. E não esqueçamos: agimos como pensamos. O que você tem pensado? Em comprar um carro?

Se não abandonarmos o lucro e a técnica, sucumbiremos. Lucrativo é, como disseram os sábios gregos, o economicamente correto. Eco-nomia é a nomeação do que é bom para a eco, a nossa morada. E o economicamente correto é a energia elétrica, e não o petróleo.

Lutemos pelo bonde veloz, pelo metrô, e não pelo crescimento da indústria automobilística!