terça-feira, 25 de setembro de 2007

Caosmose, de Félix Guatarri

Enquanto alguns procuram descomplicar as reflexões para alcançar o diálogo mais irrestrito, outros submergem nos conceitos estanques. É o exemplo de Félix Guatarri, que terminou desafortunadamente um livro brilhantemente começado: Caosmose: o novo paradigma estético.
As primeiras páginas são valiosíssimas porque tentam justificar a permanência do sujeito, embora vertido para o conceito de subjetividade. Aliás, a discussão epistemológica talvez tenha sufocado a mensagem: Guatarri propôs a adoção do conceito de "agenciamentos", a revisão do conceito de "Universos", a crítica ao conceito de "território/territorialização/desterritorialização", um novo uso do conceito de "ritornelo" e um mau entendimento do conceito de poiesis e autopoiesis. Quanto aos primeiros conceitos: não é precisado o que seja "agenciamento"; é confusa a diferença entre "universo" e "território". Sobre os dois últimos, porém, sinto-me mais à vontade para falar, pois Guatarri os tomou da teoria literária e da filosofia de Heidegger.
O ritornelo é uma repetição estrutural de um(ns) versos(s) no intuito de provocar um efeito significativo a partir das diferenças semânticas intuídas com os conteúdos entre os ritornelos. Em outras palavras, o ritornelo muda de sentido em cada aparição. Não são jamais "territórios existenciais coletivos" onde "um módulo temporal catalisador nos mergulhará na tristeza ou na alegria". Pelo contrário, os ritornelos são essencilamente subjetivos, implícitos e conotativos. A partir do já dito, isto é, do "território existencial coletivo", acontece o não-dito, apreensível somente pela inteligência individual. Um exemplo muito conhecido é a piada dos tomates, da qual riem notada e inexplicavelmente as mulheres. Algum não-dito é elaborado pela inteligência feminina que, quase sempre, acha graça da repetição onomatopaica dos tomates atropelados:

Dois tomates atravessando a rua: cuidado! "ploc!"; com o quê? "ploc!".

Mas esse ainda não é o ritornelo poiético: o sentido permanece o mesmo. No ritornelo mais rico, a estrutura repetida, não obstante, muda de sentido, como neste poema de Alberto de Oliveira:

A QUE SE FOI
[frag.]
I
Foi para melhores climas,
Que o médico em voz austera:
– “É já levá-la, dissera,
Para as montanhas de Minas.”
II
Ficou deserta a casinha,
Inda a lembrar tristemente
O vulto esguio da doente
E o longo adeus que lhe ouvira.
III
O noivo, que mal sabia
Da noiva a sorte funesta,
Com o coração todo em festa,
De longe a abraçá-la vinha.
IV
Dão-lhe a nova da partida,
E ao verem que lhe rebentam
As lágrimas, acrescentam:
Foi para melhores climas!

Note-se que o ritornelo muda de sentido mediante os diferentes conteúdos das estrofes. Na primeira estrofe, predomina o sentido de deslocamento geográfico; na última, o sentido de passagem/morte. É uma mudança semântica implícita, conotativa e absolutamente atrelada aos entendimentos subjetivos, emotivos e afetivos, apreensível somente pela inteligência individual, e não pela estrutura. Guatarri parece querer categorizar tal feição como "ritornelo complexo", mas, diferentemente do sintoma originário em poesia, atribui à estrutura o mérito das mudanças, e não às veleidades subjetivas.
Pondo, assim, a subjetividade à mercê do entorno, dos "universos referenciais", Guatarri conclui que "a enunciação se encontra descentrada em relação à individuação humana. Ela se torna correlativa não somente à emergência de uma lógica de intensidades não-discursivas, mas igualmente a uma incorporação-aglomeração pática, desses vetores de subjetividade parcial [pré-pessoal, polifônica, coletiva e maquínica]". Se o homem não mais possui linguagem, não lhe resta nada: é um "des-habitante", não tem casa. Assim, é inevitável chegar ao mau entendimento de poiesis. Atacando Heidegger, Guatarri acredita que "o Ser é como um aprisionamento que nos torna cegos e insensíveis à riqueza e à multivalência dos Universos de valor que, entretanto, proliferam sob nossos olhos." E continua: "não existe, insisto, um Ser já aí, instalado através da temporalidade". Se não há Dasein, tudo é, está e está sendo Essência, o que não é verdade: isto é um reducionismo a abstrações, é metafisicizar o pensamento heideggeriano, porque existe a insistência ec-stática no cumprimento do destino, salto instaurador no qual nos apropriamos do que nos é próprio, na e pela nossa linguagem.
É triste ver o pensamento de Guatarri beirando o determinismo: "o ser, por mais longe que se busque sua essência, resulta de sistemas de modelização operando tanto ao nível da alma quanto do socius ou do cosmos".
Como se pode revitalizar a subjetividade "não mais dada como um em si, mas face a processos de autopoiese", afirmar que "cada indivíduo, cada grupo social veicula seu próprio sistema de modelização da subjetividade" e depois entregá-la, não em condição circunstancial mas essencial, à reificação, ao reflexo do entorno, ao "agenciamento maquínico"? Como se pode elogiar a ecologia plena (do meio ambiente, do socius e da psique), dita ecosofia, fundamental para "a promoção de uma nova arte de viver em sociedade", para "uma re-singularização da subjetividade", para a "promoção da condição feminina" e depois subordiná-la "a uma mesma categoria de máquina abstrata e autopoiética que engendra as objetidades-sujeitidades de um tempo que se instaura no cruzamento de componentes engajados em processos de heterogênese"?
Precisamos acreditar que a subjetividade não só persiste, mas resiste diante de um mundo reificador. Precisamos diferenciar a Natureza e o nosso olhar, bem como, principalmente, diferenciar Natureza e Civilização. Com a Natureza, devemos aprender a (con)viver-nos nela; com a Civilização, a preservar-nos nela. O ritornelo poiético muda de sentido.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

O Veto Incondicional

Quando lembro os grandes ícones do século XX, minha impressão é de que insistem os Titãs em permanecer no Olimpo. Ou será que a plêiade de Zeus se arrependeu da retaliação? Fato é que a crise dos referenciais força o culto totêmico de algumas balizas estruturantes do velho Novo Mundo, ainda consideradas seguras, apegando-se ao evidente, ao estabelecido, como remate de males: o povo tende à iconoclastia do vigente e à consagração do mítico ou primitivo. Com toda dose de irracionalidade, desautoriza-se o estabelecimento (e o esclarecimento), qual uma autodefesa desesperada, violenta e ineficaz -- pelo grito. É a tendência ao autoritarismo, agravado pela dificuldade de exercer o mea culpa. O medo é tão vivido em nossos dias que os filmes de terror não mais assustam. O medo da mudança -- a de dentro e a de fora.

sábado, 8 de setembro de 2007

Ecologia é Visão de Mundo

O assunto mais em voga nesse momento é a Ecologia, por conta dos problemas ambientais, sobretudo climáticos, apontados pelo vice-presidente dos EUA, Al Gore.
Com nossa herança tecnicista, esgotamos nossos esforços na inútil lista de "isso" e "aquilo". Tão alienados na quantificação, nós esquecemos que qualquer solução será uma viagem ecológica e estará para além do rol interminável das causas e efeitos: o homem polui, e o planeta agoniza. Embora clichê, a sentença não indica nenhum rumo para uma convivência melhor em nosso planeta.
A tão sonhada Pós-Modernidade pode finalmente ser vivida, quem sabe, nessa nova Era Ecológica por vir, caso não termine em mais um fracasso de utopias. A superação da lógica moderna não acontecerá, como não aconteceu, com as rupturas que alimentam suas engrenagens voltadas ao funcionamento da máquina, do capital e da razão. Ainda que conciliemos desenvolvimento econômico (no sentido originário dessa palavra) e harmonia com a natureza, remediando a catástrofe, permaneceremos amargando a decadência da civilização tecnolóide até, não duvidemos, um apocalipse previsto em alguma ficção científica hollywoodiana. Somente um abandono contundente das práticas iluministas, positivistas e mercantilistas pode descartar a viciosa Modernidade tardia.
Para a Ecologia de fato vingar, precisamos vivenciá-la -- e isso implica mudarmos nosso modus vivendi. Interesses, preocupações e atividades devem abandonar a bússola do mercado e da indústria para buscarem como guia a harmonização do homem em seu habitat, e isso só é possível quando entendermos a importância da natureza, como corpo de criação do Criador, portanto, como criatura divina, em eterno diálogo com a transcendência. Afastarmos da natureza é nos alienarmos cada vez mais em nossas engrenagens reificantes.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

A Pseudotransformação

Nossa contemporaneidade está repleta de inseguranças porque as pessoas não se reconhecem em si mesmas pela falta de valores, que são construídos mediante nosso entendimento dos conceitos atualmente desestruturados.
Há quem tenha visto nessa situação o início de uma nova era, a pós-modernidade. Mas a carência de conceitos e, portanto, de valores, não nos trouxe nenhum salto para uma nova época, e sim, nos aprisionou na decadência de uma civilização já conhecida.
Muitos acreditaram que novos paradigmas seriam criados para um mundo novo, graças à necessidade de se elaborarem novos conceitos. Mas o fato é que essa elaboração não ocorreu; e, em conseqüência, houve um retrocesso: o apego aos conceitos mais básicos, acirrando seus significados em direção a dogmas e doutrinas.
A flexibilização é mais do que necessária. Hoje precisamos abrir nossos horizontes para o novo e o diferente, mas só poderemos abri-lo se tivermos um. E esse horizonte é adquirido na visitação à herança cultural, isto é, à bibliografia disponível.
As propostas e metodologias circulares da filosofia foram as que sobreviveram com mais vigor em nossos dias. Por isso, precisamos circular, ao invés de ficarmos parados.

sábado, 1 de setembro de 2007

Superando a crise dos referenciais

Em meados do século XX, os intelectuais da Desconstrução, como Roland Barthes, Michel Foucault e Jacques Derrida, lançaram um programa que basicamente denunciava ou adensava uma crise na linguagem: os conceitos foram fragilizados pela fragmentação do mundo moderno e quedam ou desconhecidos ou erroneamente entendidos.
Embora esses autores franceses afirmassem que não objetivavam a destruição dos conceitos, a percepção deles sobre um acontecimento não o poderia mudar a priori, mesmo se quisessem. E foi o caso: pretendiam reformular as idéias e os métodos de conhecimento.
Mas não foi suficiente a proposta de nos devolver à "lógica do perdão", já criticada por Niezsche, que escravizava o homem numa ciranda de culpas e dívidas com a força dialética e transcendente. Isso intimida o ser humano a buscar sua liberdade, e sua potência de linguagem é freada e censurada pela opressão do tabu e da obediência ignorante, baseada no medo. Como defesa, alimenta-se a arrogância para disfarçar a vulnerabilidade das incertezas pessoais.
Restou, disso tudo, uma crise dos referenciais, pois a última paragem da trilha desconstrutivista nos remetia à necessidade religiosa, que, se ainda necessidade, está por se fazer.
Além disso, numa dinâmica de indústria cultural que aliena as massas, a opção pela desestruturação dos conceitos prejudicou ainda mais a autodeterminação do indivíduo, quer dizer, a afirmação de si mesmo, pois o poderio do mass media já corroía a linguagem e o pensamento em direção à homogenização acrítica.
Por isso, o salto necessário era solidificar os conceitos para arriscar o debate, ainda que modesto, pelos velhos mecanismos da razão, objetivando o esclarecimento (iluminismo) do ser, para uma futura contestação. Como não se procedeu dessa forma, surgiu uma geração cética, que não acredita em quase nada, mesmo mediante condicionantes factuais, como consequência da carência de referenciais e da segurança ontológica. Sem consciência de seu desespero, a massa se apega a conceitos mais elementares e os tranforma em totem, procurando ritualizar e cultuar religiosamente o símbolo. Irrefletidamente, a massa outorga seus parâmetros inflexíveis, que promovem, evidentemente, a exclusão da diferença, isto é, o tabu. A tendência é o renascimento do nazismo em suas premissas de superioridade e de susbstituição da regra entendida pela norma adorada, quer dizer, da placa de trânsito pela hieráldica das figuras. Mesmo não sabendo o que é a suástica, ela deve ser amada e reverenciada.
Precisamos refazer esse descaminho para tentar um rumo. A tolerância é mais relevante do que o perdão, nessas circunstâncias aliciadas ao totem. Se percebemos o acirramento das divergências, é porque sacralizamos cada vez mais o nosso totem e desprezamos ou maldizemos o totem dos outros, que enxergamos como tabu. Somente o diálogo reverte esse processo, mas entre pessoas melindrosas de suas fragilidades e desconhecimentos internos, haverá diálogo?
"Conhece-te a ti mesmo".

A Redenção da Utopia

Se conferirmos o que é utopia, identificaremos que ela está projetada, isto é, idealizada e lançada, como expectativa, para o futuro. É necessário trazê-la de uma vez por todas para nossa realidade, ou melhor, transformar nossa realidade na utopia. Se mudarmos nossos hábitos e pensamentos em direção ao que nós esperamos, não precisaremos esperar mais. E a utopia deixará de existir, tal qual um sonho, para se tornar realidade.
Foi isso que John Lennon havia dito ao criar a música Imagine. No entanto, como realizar este sonho, esta utopia? Só há um caminho: o autoconhecimento, quer dizer, o conhecimento de nós mesmos para que possamos enxergar o que nos impede de crescer para efetivamente nos livrar das amarras que nos impedem de ser o que gostaríamos de ser.
Se sairmos um pouco de nosso egoísmo, perceberemos que somos responsáveis, pelo menos em parte, por não vivermos a utopia. Roubar, matar, estrupar não são os únicos impeditivos, e todas as ações negativas são praticadas pelo homem, por isso existem como palavras: as palavras apenas nomeiam o que existe.