sábado, 1 de setembro de 2007

Superando a crise dos referenciais

Em meados do século XX, os intelectuais da Desconstrução, como Roland Barthes, Michel Foucault e Jacques Derrida, lançaram um programa que basicamente denunciava ou adensava uma crise na linguagem: os conceitos foram fragilizados pela fragmentação do mundo moderno e quedam ou desconhecidos ou erroneamente entendidos.
Embora esses autores franceses afirmassem que não objetivavam a destruição dos conceitos, a percepção deles sobre um acontecimento não o poderia mudar a priori, mesmo se quisessem. E foi o caso: pretendiam reformular as idéias e os métodos de conhecimento.
Mas não foi suficiente a proposta de nos devolver à "lógica do perdão", já criticada por Niezsche, que escravizava o homem numa ciranda de culpas e dívidas com a força dialética e transcendente. Isso intimida o ser humano a buscar sua liberdade, e sua potência de linguagem é freada e censurada pela opressão do tabu e da obediência ignorante, baseada no medo. Como defesa, alimenta-se a arrogância para disfarçar a vulnerabilidade das incertezas pessoais.
Restou, disso tudo, uma crise dos referenciais, pois a última paragem da trilha desconstrutivista nos remetia à necessidade religiosa, que, se ainda necessidade, está por se fazer.
Além disso, numa dinâmica de indústria cultural que aliena as massas, a opção pela desestruturação dos conceitos prejudicou ainda mais a autodeterminação do indivíduo, quer dizer, a afirmação de si mesmo, pois o poderio do mass media já corroía a linguagem e o pensamento em direção à homogenização acrítica.
Por isso, o salto necessário era solidificar os conceitos para arriscar o debate, ainda que modesto, pelos velhos mecanismos da razão, objetivando o esclarecimento (iluminismo) do ser, para uma futura contestação. Como não se procedeu dessa forma, surgiu uma geração cética, que não acredita em quase nada, mesmo mediante condicionantes factuais, como consequência da carência de referenciais e da segurança ontológica. Sem consciência de seu desespero, a massa se apega a conceitos mais elementares e os tranforma em totem, procurando ritualizar e cultuar religiosamente o símbolo. Irrefletidamente, a massa outorga seus parâmetros inflexíveis, que promovem, evidentemente, a exclusão da diferença, isto é, o tabu. A tendência é o renascimento do nazismo em suas premissas de superioridade e de susbstituição da regra entendida pela norma adorada, quer dizer, da placa de trânsito pela hieráldica das figuras. Mesmo não sabendo o que é a suástica, ela deve ser amada e reverenciada.
Precisamos refazer esse descaminho para tentar um rumo. A tolerância é mais relevante do que o perdão, nessas circunstâncias aliciadas ao totem. Se percebemos o acirramento das divergências, é porque sacralizamos cada vez mais o nosso totem e desprezamos ou maldizemos o totem dos outros, que enxergamos como tabu. Somente o diálogo reverte esse processo, mas entre pessoas melindrosas de suas fragilidades e desconhecimentos internos, haverá diálogo?
"Conhece-te a ti mesmo".

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