Enquanto alguns procuram descomplicar as reflexões para alcançar o diálogo mais irrestrito, outros submergem nos conceitos estanques. É o exemplo de Félix Guatarri, que terminou desafortunadamente um livro brilhantemente começado: Caosmose: o novo paradigma estético.
As primeiras páginas são valiosíssimas porque tentam justificar a permanência do sujeito, embora vertido para o conceito de subjetividade. Aliás, a discussão epistemológica talvez tenha sufocado a mensagem: Guatarri propôs a adoção do conceito de "agenciamentos", a revisão do conceito de "Universos", a crítica ao conceito de "território/territorialização/desterritorialização", um novo uso do conceito de "ritornelo" e um mau entendimento do conceito de poiesis e autopoiesis. Quanto aos primeiros conceitos: não é precisado o que seja "agenciamento"; é confusa a diferença entre "universo" e "território". Sobre os dois últimos, porém, sinto-me mais à vontade para falar, pois Guatarri os tomou da teoria literária e da filosofia de Heidegger.
O ritornelo é uma repetição estrutural de um(ns) versos(s) no intuito de provocar um efeito significativo a partir das diferenças semânticas intuídas com os conteúdos entre os ritornelos. Em outras palavras, o ritornelo muda de sentido em cada aparição. Não são jamais "territórios existenciais coletivos" onde "um módulo temporal catalisador nos mergulhará na tristeza ou na alegria". Pelo contrário, os ritornelos são essencilamente subjetivos, implícitos e conotativos. A partir do já dito, isto é, do "território existencial coletivo", acontece o não-dito, apreensível somente pela inteligência individual. Um exemplo muito conhecido é a piada dos tomates, da qual riem notada e inexplicavelmente as mulheres. Algum não-dito é elaborado pela inteligência feminina que, quase sempre, acha graça da repetição onomatopaica dos tomates atropelados:
Dois tomates atravessando a rua: cuidado! "ploc!"; com o quê? "ploc!".
Mas esse ainda não é o ritornelo poiético: o sentido permanece o mesmo. No ritornelo mais rico, a estrutura repetida, não obstante, muda de sentido, como neste poema de Alberto de Oliveira:
A QUE SE FOI
[frag.]
I
Foi para melhores climas,
Que o médico em voz austera:
– “É já levá-la, dissera,
Para as montanhas de Minas.”
II
Ficou deserta a casinha,
Inda a lembrar tristemente
O vulto esguio da doente
E o longo adeus que lhe ouvira.
III
O noivo, que mal sabia
Da noiva a sorte funesta,
Com o coração todo em festa,
De longe a abraçá-la vinha.
IV
Dão-lhe a nova da partida,
E ao verem que lhe rebentam
As lágrimas, acrescentam:
– Foi para melhores climas!
Note-se que o ritornelo muda de sentido mediante os diferentes conteúdos das estrofes. Na primeira estrofe, predomina o sentido de deslocamento geográfico; na última, o sentido de passagem/morte. É uma mudança semântica implícita, conotativa e absolutamente atrelada aos entendimentos subjetivos, emotivos e afetivos, apreensível somente pela inteligência individual, e não pela estrutura. Guatarri parece querer categorizar tal feição como "ritornelo complexo", mas, diferentemente do sintoma originário em poesia, atribui à estrutura o mérito das mudanças, e não às veleidades subjetivas.
Pondo, assim, a subjetividade à mercê do entorno, dos "universos referenciais", Guatarri conclui que "a enunciação se encontra descentrada em relação à individuação humana. Ela se torna correlativa não somente à emergência de uma lógica de intensidades não-discursivas, mas igualmente a uma incorporação-aglomeração pática, desses vetores de subjetividade parcial [pré-pessoal, polifônica, coletiva e maquínica]". Se o homem não mais possui linguagem, não lhe resta nada: é um "des-habitante", não tem casa. Assim, é inevitável chegar ao mau entendimento de poiesis. Atacando Heidegger, Guatarri acredita que "o Ser é como um aprisionamento que nos torna cegos e insensíveis à riqueza e à multivalência dos Universos de valor que, entretanto, proliferam sob nossos olhos." E continua: "não existe, insisto, um Ser já aí, instalado através da temporalidade". Se não há Dasein, tudo é, está e está sendo Essência, o que não é verdade: isto é um reducionismo a abstrações, é metafisicizar o pensamento heideggeriano, porque existe a insistência ec-stática no cumprimento do destino, salto instaurador no qual nos apropriamos do que nos é próprio, na e pela nossa linguagem.
É triste ver o pensamento de Guatarri beirando o determinismo: "o ser, por mais longe que se busque sua essência, resulta de sistemas de modelização operando tanto ao nível da alma quanto do socius ou do cosmos".
Como se pode revitalizar a subjetividade "não mais dada como um em si, mas face a processos de autopoiese", afirmar que "cada indivíduo, cada grupo social veicula seu próprio sistema de modelização da subjetividade" e depois entregá-la, não em condição circunstancial mas essencial, à reificação, ao reflexo do entorno, ao "agenciamento maquínico"? Como se pode elogiar a ecologia plena (do meio ambiente, do socius e da psique), dita ecosofia, fundamental para "a promoção de uma nova arte de viver em sociedade", para "uma re-singularização da subjetividade", para a "promoção da condição feminina" e depois subordiná-la "a uma mesma categoria de máquina abstrata e autopoiética que engendra as objetidades-sujeitidades de um tempo que se instaura no cruzamento de componentes engajados em processos de heterogênese"?
Precisamos acreditar que a subjetividade não só persiste, mas resiste diante de um mundo reificador. Precisamos diferenciar a Natureza e o nosso olhar, bem como, principalmente, diferenciar Natureza e Civilização. Com a Natureza, devemos aprender a (con)viver-nos nela; com a Civilização, a preservar-nos nela. O ritornelo poiético muda de sentido.
terça-feira, 25 de setembro de 2007
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Um comentário:
"diferenciar Natureza e Civilização"
Isso não seria um par de oposição binário, típico dos saberes do século XIX?
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