sexta-feira, 28 de março de 2008

Led Zeppelin: pós-modernidade como projeto (III)

Será que existe um atopos maior do que Led Zeppelin? Genericamente identificado como rock, outro lugar, no entanto, seria difícil de se pensar. Isto quer dizer que LZ só permite essa associação com o rock porque este é a grande abertura para o fundamento. Ora, o fundamento, por si só, ainda que não sabido do que, é uma questão.

Rock, em língua inglesa, quer dizer rocha. Habitualmente atribuído à "dureza" do estilo, na verdade "rock" diz uma questão: o mineral. O grande gênio sabe que o mistério da primordialidade se confunde com o ser rocha, no sentido de que a "massa informe" ovidiana, se mais do que pantanosa, era a terra, terra bruta, antes da água. Como disse João Cabral: "no deserto, Anfion": sem nada mais do que terra, o poeta já é "no mineral". Na metáfora do penetrar a rocha se desvela escavação rumo ao originário. "Faz milhões de tempos/vezes desde o rock n' roll", diz uma das músicas do LD. Por várias formas, dá-se esse através da pedra, como imagem do originário. O tempo é uma experienciação unidimensional, a partir do originário, imageticamente ficcionalizado pelo próprio "rock": pedra, mineral.

Sobre o originário, não bastasse, LD também acontece originariamente. Na encruzilhada dos caminhos musicais, artísticos, humanos, explode uma música híbrida, e tenaz. LD é uma reposição do próprio rock n' roll, e da música em geral. Na conjugação de blues, jazz, pop e música erudita de todo o tipo, principalmente Mozart, Bach e compositores exóticos ou orientais, LD é uma experienciação que pensa sobre si mesma, enquanto arte que é, pensando, portanto, inclusive a própria música enquanto arte: "Para ser 'rock' (rocha) e não 'roll' (mole)". Na dimensão da arte acontece o homem: "eu sou um cara simples e vivo 'from' (a partir do) dia 'to' (para o) dia / um raio de sol beija minha fronte e derrama meu blues". É importante ressaltar a opção por "from day to day", pois ainda há "day to day" e "day by day", a mais usual. A escolha da locução adverbial permite o sentido de circularidade que as outras opções não permitem: tendo o dia como origem, viver é lançar-se para o dia, que é o originário - do dia para o dia, ou, quem sabe, o dia pelo dia, como a arte-pela-arte.

Da pedra filosofal, jorra primordialmente o maior dos apelos humanos: "eu vou te dar o meu amor". Interessante perceber que a ordem das citações está decrescendo cronologicamente: "para ser rock e não roll" é de 1972; "vivo do dia para o dia", de 1970; "eu vou te dar o meu amor", de 1969. Nos primórdios da banda, vemos que o apelo humano veio de uma pró-vocação: "quebra de comunicação... sempre a mesma coisa! Estou tendo um ataque de nervos tentando dizer: quero sentir seu adorável charme" (1968). Esse dizer não é o uso corriqueiro da língua, é o falar pela linguagem a essencialidade. Dessa maneira, os quatro discos sem nome da banda LZ realizam o pró-jeto do ser, surgindo "Casas do Sagrado", quinto álbum e primeiro intitulado.

Então, na verdade, não fosse a necessidade de explicar "rock", deveríamos respeitar a gênese da banda: em primeiro, dizer a originariedade, a pró-vocação (1968); em segundo, dizer o apelo, que realiza a pró-vocação (1969); em terceiro, a vida como experieniação de retorno ao originário (1971); finalmente o "rock" como originário (revisitado) que se espraia de diversas maneiras, por diversos tempos.

Mas nada da pós-modernidade ainda foi dito. Desde 1970, LD já trazia a revitalização da mitologia antiga pela linguagem moderna: "o martelo dos deuses vai guiar nossas naus para novas terras / para lutar contra a horda, cantando e gritando: Valhalla, eu estou vindo". Um ano antes, foi gravada "Thank you", que mostra a cópula entre terra e água, "rock n' roll": "As montanhas elevam-se sobre o mar: devem ser você e eu". Eis a dimensão ecológica cantada no vigor do mito, na celebração do rito maior: pró-criação.

A força opressora da indústria cultural se arroga o direito de desafiar LD. LD já é o desafio, antes mesmo de nossa ordem-do-dia ecológica ou "pós-moderna". Robert Plant, como lírico, já enviou seu recado, e no envio deste esteve e continua estando o não-recado (por onde a indústria o enxerga). Jimmy Page, virtuose máximo da guitarra, deixou nos shows uma marca inconfundível justamente porque irrealizável: as recentes remasterizações, finalmente livres do volume alto, já revelam sua insuperabilidade. John Paul Jones é o artífice que, pelo contrabaixo, sustém o caos no mínimo de comunicabilidade (e o grau zero é o mais difícil). E John Bonham é quem dá os sinais da percussão (percutir: o que, antes de repercutir, fala para o redor): por isso, dos quatro é o mais compreendido.

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